
Carma invertido – Exposição de Mariana Caló e Francisco Queimadela com Mattia Denisse e Von Calhau!
Convento dos Capuchos da Caparica, curadoria de Susana Ventura, a convite Contemporânea – 19 Julho a 11 de Outubro de 2025
Carma invertido é a primeira exposição da dupla de artistas Mariana Caló e Francisco Queimadela com a colaboração dos artistas convidados Mattia Denisse e Von Calhau!, integrada no projecto mais vasto On Hybridity and the Poetics of Resistance, concebido pela Contemporânea. Pensada para ocupar vários espaços do antigo Convento dos Capuchos, em
Almada, a exposição configura-se como uma vasta instalação ou meio comunicante entre peças heterogéneas, cruzando diferentes tempos da produção dos artistas — entre reconfigurações originais de obras anteriores e um corpo de obra nova — e explorando, igualmente, distintos media — da fotografia à imagem-movimento, do desenho à pintura, passando pela escultura. Neste percurso, entrelaçam-se intervenções site-specific dos artistas convidados nos espaços exteriores do convento, pontualmente activados por um programa complementar de performances.
Se carma, na filosofia hindu, remete para um princípio de causalidade cuja premissa ética implica não apenas a relação acção-efeito na determinação do ciclo da vida e do mundo, mas também as intenções e os desejos que antecedem e acompanham essas acções, Carma invertido sugere uma disjunção nessas relações — mais do que uma negação ou tentativa de reversão das consequências. São os elos de um sentido e partilha comuns, temporal (sendo o carma também o ciclo que une passado e futuro) e espacialmente (no mundo onde esse ciclo se actualiza, incessantemente), que se encontram hoje num processo acelerado de desarmonia irreversível.
As diversas obras em Carma invertido actuam como signos visuais intensos dos múltiplos processos onde essa emergência se agudiza, adensando a inquietação e a perplexidade do presente. Mas é também na energia que cada uma concentra e retém que se vislumbra a possibilidade de um desejo individual de renascimento poético. Essa possibilidade torna-se tangível, porque estas obras não preconizam qualquer moral, criando, antes, ligações afectivas ao inexplicável e misterioso da vida. Poderá ser este, também, o sentido de inversão que aqui se ensaia?
Texto de Sala – Susana Ventura



Alfabeto Analfabeto – Convento dos Capuchos da Caparica © Carbonara.st 2025
Histórias Assímptotas de Três Cantos
Em tempos, reunia-se aqui uma comunidade votada às práticas espirituais e à vida contemplativa. Celebrava as criações do mundo com cânticos jubilosos, invocando o sol, a água, o fogo, o vento, as mais diversas criaturas e elementos orgânicos como irmãos e companheiros. Transformava o espaço murado em escola e os terrenos em redor em hortas e pomares, de onde admirava o mar a estender-se infinitamente… Agora, é outra a comunidade que habita estes lugares e os seus cânticos também são outros.
Primeiro Canto
[ou o Canto do Pássaro]
O que é que mudou?
Não sei dizer. Vejo, ainda, o mar e a arriba abrupta cor de sangue de terra exposta à aridez de milénios, rarefeita imponente, a quem roubo pequenos galhos. Mas as árvores são esparsas e já não sinto o voo no corpo, porque o vento abandonou as minhas asas. Pensava que voava, porque continha em mim o sonho, quando, da boca gutural de um peixe-dragão, ouvi o gargalhar de outras notas sintéticas e um som metálico — qual pancada! pum! — profundo que no ar ecoava a rigidez do tempo. Nesse instante, pensei que o sonho me havia abandonado e, no meu primeiro ensaio, caí a pique.
Diz-se que aquele estranho ser de duas pernas erectas [coitado — tropeçou nelas, na sua, por si inventada, superioridade!], por não conhecer o voo no seu corpo, tentou imitar os pássaros, escapando-lhe da boca outras notas. Depressa a música desembaraçou os corpos da sua inércia, da materialidade da sua presença5, concedendo-lhes a sedutora ilusão de pertencerem a um mundo outro. O filósofo defendeu que seria necessário reintroduzir as cores na música — o que implicaria, necessariamente, estabelecer um sistema de correspondências entre sons e cores— porque são as cores que fazem do corpo presença, ainda que por vezes etérea e fugidia. A nossa formulação poderia ser outra, relembrando a teoria das substâncias de um dos mais célebres membros internacionais daquela primeira comunidade,7 sendo a cor uma substância sem corpo, mas que apenas num corpo se consubstancia. A música não conhece as cores, mas sabe dizer os seus interstícios.
Mais fácil foi, ao que parece, acreditar o inventor da imitação dos pássaros noutra analogia – entre o seu balbuciar rudimentar e o nosso canto alado. Talvez por isso lhe tenha ocorrido aquela ideia — que nem à água (a primeira a conhecer a linguagem no mundo) lembraria — de que tudo se passaria na cabeça, algures entre a boca e os ouvidos, esquecendo o corpo. Necessitaria, apenas, de criar uma caixa de ressonância — como os nossos maravilhosos pulmões — para fazer entrar, de regresso pelos seus próprios ouvidos, os seus sons guturais em anagramas sem fim, entrelaçados. (In)satisfeito ainda, rejeitando o tempo — essa força invisível que parece consumir os seus corpos, impedindo-os de apreender a música e o voo num ciclo eterno — fez do badalo de um sino pendurado morto a sua cabeça.
(Quando morremos, a audição é o último sentido a desaparecer)


Efeito Orla – Convento dos Capuchos da Caparica © Carbonara.st 2025
Segundo Canto11
[ou o Canto da Agua]
O que subsiste na minha ausência?
Nunca tive cor, mas atribuíram-me sempre gradações de azul ou de verde, tonalidades às quais conferiam uma qualidade evocativa ou evanescente. Na minha ausência, restam apenas ossos e fósseis mergulhados num lodo verde ácido que tudo corrói, inflamando o olhar.
O olhar hipnótico só se torna possível no intervalo intangível entre a revelação e o desaparecimento. Os olhos esverdeados e ardentes da criatura mítica foram substituídos por discos ópticos pintados que, ao reflectirem-se na minha superfície, girando, girando, tornavam presente a presença fantasmática do seu corpo fugidio.
As cores regressam ao pó primordial, tingindo tudo quanto tocam. Mas já não há tacto — apenas uma quietude mineral repousa no que subsiste: membros corniformes de um corpo ininteligível, imerso num tempo suspenso. As únicas formas que parecem persistir — por ainda guardarem, talvez, uma anima latente — apontam para vestígios dessa linguagem arcaica, partilhada comigo por plantas e animais: uma proto-linguagem da Terra animada, anterior à palavra. Mas, [q]uando vemos beleza na desolação, há algo que muda em nós. A desolação tenta colonizar-nos.13 Só a desolação (re)conhece a minha ausência.
Num manto de lama ressequida, entre esqueletos de casas e fábricas, ramos podres e ruas que já não correm, fendam-se as minhas cicatrizes mais profundas. Contra a paisagem desolada, o corpo da criança desenha uma figura de pernas para o ar. As pernas parecem entrelaçar-se, ensaiando uma inversão complexa, descrevendo o fragmento de um círculo imaginário — como se, através da criança, passasse um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes14 dela, recriando-se num movimento tanto de fim como de começo. A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a presente. Então, foram esperados sobre esta Terra. Então, foi-lhes dada, como a todas as gerações que os antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de animo leve esse direito.15Mas a criança aceita-o como a um jogo. Jogo entre fundo e figura – fundo que funde, fundo que se solta e solta o fio, desenha um círculo; o círculo solta-se e desenha outra figura ainda, incessantemente, e outra vez, de forma diferente. O mundo às avessas ignora esse movimento circular que põe em andamento o tempo para além do tempo que cada um espera para si. O meu movimento foi sempre fluido e eminentemente circular, mesmo quando fazem de mim espelho ou fundo translúcido de cor, concedendo-me uma superfície e uma profundidade puramente ilusórias e encantatórias, de onde emergem sombras negras – resquícios de outras formas de vida, de uma natureza ardente — que, ao se fixarem, quais sombras puras esvoaçantes, relembram a dança da criança ou a de Dionísio.


Aceredo + Fio Condutor – Convento dos Capuchos da Caparica © Carbonara.st 2025
Terceiro Canto16
[ou o Canto do Vento]
De que fogem, apressados?
Do paraíso, sopro sempre intempestivamente. O filósofo chamou-me Progresso — força desmedida que tudo destrói e deixa em ruínas. Quando o poder divino interfere no mundo terreno, respira destruição. Por isso não existe neste mundo nada de permanente.17
O Anjo18 fita ainda, hirto e imóvel, com as asas enrodilhadas nas minhas correntes, as catástrofes a acumularem-se diante dos seus olhos estupefactos. Bem gostaria ele de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas o meu sopro é tão forte que o anjo não consegue fechar as suas asas. Arrasto-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu.19
O jardim murado do Paraíso foi um primeiro engodo — julgado, erradamente, como forma de conter as forças intempestivas e domesticar a Mãe-Natureza, quando, afinal, se pretendia preservar esta dos apetites vorazes dos humanos. Quando Príapo — filho de Dionísio e Afrodite, deus da fertilidade e da natureza, protector dos jardins e dos animais — surgiu de falo erecto e monumental, a submissão já se encontrava em curso.
Mas o meu sopro, esse, nunca cessou — respiração de um tempo sem tempo, atravessando eras, corpos e mitos, sem direcção, sem destino (divirto-me criando redemoinhos). O jardim já não separa mais o bem e o mal, o mundo divino do mundo terreno, o futuro do passado, e a guardá-lo, duas figuras grotescas:21 de um lado, Gargântua; do outro, Pinóquio — ambos sob a efígie de Príapo, que lhes concedeu, à sua imagem e semelhança, esse importante atributo de domínio (ou será de sobrevivência?). Corpos desmesurados habitam o jardim das metamorfoses, onde a beleza e a graça dançam com os despojos do passado, enquanto ensaio outras direcções.
Do paraíso sopro — e sopro ainda mais…
Há já quem fuja, soçobrado, esquecendo que não há Anjo que lhes ampare o trambolhão.
Susana Ventura
Julho de 2025



